A última bandeira, da Argentina ao Chile pelo Paso Cardenal Samoré

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Chegamos pouco depois do meio dia na aduana Argentina, junto ao Paso Cardenal Samoré. o caminho havia sido puxado, além disso após os tramites de saída da Argentina ainda teríamos de percorrer os 40km restantes até a aduana chilena, metade disso em fortes subidas que culminariam no passo fronteiriço. Até cogitamos dormir entre as aduanas, mas fomos informados que isso não seria permitido e que possivelmente seriamos repreendidos pela gendarmeria (policiais) argentina ou pelos carabineiros (policiais) chilenos. Retornamos então alguns metros pela rodovia e fizemos nosso ultimo acampamento selvagem na Argentina antes de realizar a travessia. Foi uma noite fria, porém tranquila, em meio a um jovem bosque de coyhues.

No dia seguinte partimos o mais cedo o possível, visto que a aduana apenas iniciaria suas atividades as 8 da manhã. Carimbamos os passaportes, validamos os documentos de saída da Frida e prontamente iniciamos a ja esperada subida. Em outubro a neve ja deveria estar escassa, porém todos diziam que o inverno desse ano se alongara. Apos poucos minutos ja a encontrávamos novamente, acumulada por entre as árvores que não deixavam o ainda tímido sol da primavera derretê-la. A medida que subíamos, a quantidade de neve que resistia ao tempo crescia e se acumulava. Nesse dia o sol custava a dar as caras e uma chuva fina insistia em cair. Com as mãos molhadas, pálidas pelo frio cortante, tivemos que parar para vestir as roupas e luvas impermeáveis. A Frida teve de se contentar com a vista de dentro do trailer, assim se manteria seca até que a chuva desse uma trégua.

E assim seguimos, alternando entre a sensação de frio intenso e o calor gerado pelas camadas de roupas que cumpriam adequadamente com a sua função. A medida que subíamos, a teimosa chuva começava a se transformar em água neve, pequenos flocos de derretiam ao menor toque. Em pouco tempo a neve se intensificou, transformando-se numa pesada chuva congelada. Os flocos viraram minúsculos pedriscos de gelo que incomodavam quando atingiam a pele exposta e se acumulavam em qualquer imperfeição ou dobra da roupa. Felizmente essa condição não era constante e nos dava longas tréguas, mas confesso que foi uma experiência belíssima e única, pedalar sob a neve que caia.

A aproximação do passo fazia com que a paisagem se alterasse com violência. Passamos junto a um longo trecho de algo que poderia ser chamado de um bosque fantasma. Gigantescas árvores enegrecidas, retorcidas e sem folhas, todas tocadas pela morte, mas evidentemente o local não tivera sofrido nenhum incêndio, caso contrário haveria sinais de carbonização nas árvores. Mais tarde fomos descobrir que o motivo da morte desse bosque fora a grande erupção do vulcão Calbuco, em 2008. Essa foi a mesma erupção que chegou a fechar aeroportos no sul e sudeste do Brasil. Os fortes ventos empurraram a coluna de fumaça em direção a região por onde passávamos e, devido a sua proximidade, a fumaça vinha ainda carregada de cinzas muito quentes, literalmente cozinhando tudo o que tocava.

Nessa altitude a neve ainda acumulada ja somava alguns metros, até o momento em que nos sentimos realmente pequenos próximo a paredes de até cinco metros de neve, maiores até que os ônibus que passavam displicentemente por essas incríveis paredes brancas.
Finalmente atingimos o topo da longa subida, que também marcava o limite entre os dois países. Ali finalmente tocávamos o solo chileno e a última bandeira da nossa viagem podia ser hasteada. A divisa era simples, demarcada com uma placa modesta e pela diferença na qualidade do pavimento, que era muito pior no lado chileno.

Dali para frente teríamos uma longa descida, mas é claro que tudo deve ser apreciado com o tempero adequado e, poucos metros após o início da descida, a chuva congelada tornou a cair. Com a velocidade da descida os pedriscos de gelo machucavam o rosto, nos obrigando a vestirmos nossas balaclavas. Ainda mais rápido do que antes, a paisagem voltava a mudar. A neve virou chuva e, de repente, desapareceu, quase permitindo ao sol dar suas caras. O branco dava lugar a um verde intenso, florestas altas, fechadas, repletas de cipós e demais epífitas. Novamente se ouviam pássaros e, por um tempo, nos pareceu que estávamos pedalando no Brasil, não fossem os vulcões e montanhas nevadas distantes no horizonte.

Quando então menos esperávamos, atingimos a aduana chilena. Os trâmites foram rápidos, os documentos da Frida estavam corretos (ufa!) e agora tínhamos três meses para desfrutar do que o Chile nos tinha a oferecer, desde que pudéssemos pagar por isso. Mas isso fica para o próximo relato!

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