Simplicidade, segurança e os 23 dias pedalando pelo Uruguai

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Não nos demoramos muito para atravessar a fronteira. Atravessamos o Chuí por fora da cidade mesmo, pois nossa ansiedade para chegar em Punta del Diablo era grande. Nossos amigos Daniel e Eveline, da viagem Pela Vida Afora, estavam há 2 meses cuidando de uma pequena pousada por lá e conseguiram com a proprietária uma cabana exclusiva para nós. Estávamos loucos para trocar as experiências do primeiro mês de viagem e saber por tudo que eles também já haviam passado até ali.

A fronteira foi uma injeção de ânimo para entrar no Uruguai. Além de ninguém ter solicitado qualquer tipo de documentação para a Frida (o que foi ótimo, pois o teste que fizemos de Leishmaniose já estava vencido há alguns dias), o oficial aduaneiro ainda tirou fotos conosco e ofereceu, caso necessitássemos, um lugar em sua casa, também em Punta del Diablo.

Logo após a fronteira estreamos nossa cozinha móvel durante o almoço. Incrível que ao longo de todo o Brasil não havíamos cozinhado no almoço uma única vez. A partir do momento em que cruzamos essa fronteira, cozinhar no almoço se tornou a nossa rotina. Tanto no Uruguai quanto na Argentina, comer em restaurantes é muito caro. Enquanto no Brasil conseguíamos comprar marmitas por R$12,00, que serviam a nós dois e ainda sobrava comida, no Uruguai e Argentina, a média de preço para uma pessoa é de R$25,00.

Em Punta descansamos por uma semana inteira. As previsões eram de chuva, então aproveitamos para conhecer todo o pueblo. Comemos bem, conversamos muito e tivemos nosso merecido descanso. Na companhia de nossos amigos, conhecemos o parque Santa Teresa, que abriga também um antigo forte militar. Lugar lindo e muito bem cuidado.

Ainda em Punta, ficamos fascinados com a arquitetura das casas. Todas simples, bonitas e eficientes. Nada de tamanhos excessivos. Tudo com muitas janelas, sem grades, com conceitos ecológicos e linhas distintas, sempre com criatividade. Além disso, grande parte das casas foi construída por seus próprios donos. 

Aliás, essa é outra coisa que nos marcou no Uruguai. As pessoas se sentem bem construindo suas coisas, colocando seu suor naquilo que têm. Muitos constroem suas próprias casas, seus móveis, tudo! São muito habilidosos e pouco apegados aos bens materiais. Pessoas com nível altíssimo de educação, andando com carros simples, vivendo em casas feitas por eles mesmos, atuando fortemente em comunidade. Um tapa na cara dos brasileiros, e mais um chacoalhão que tomamos no caminho. 

Depois de Punta passamos por Castillos, onde nos hospedamos na casa do chefe dos bombeiros locais. Seguimos para la Riviera e acampamos às margens de um rio que recém passava por uma enchente. O local onde dormimos era público, aberto, sem qualquer cercado, porém muito seguro. Essa rotina se repetiu várias vezes no Uruguai, dormir em locais públicos, sem segurança aparente (para nós brasileiros), porém extremamente seguro pela cultura das pessoas. Em um desses campings pegamos a primeira geada da viagem, e lá descobrimos que o saco de dormir do Gilli já não estava tão bom para temperaturas baixas. Foi uma noite mal dormida, mas sobrevivemos!

No caminho encontramos mais um cicloviajante, o Shirtes. Já havíamos ouvido falar dele nos nossos Warm Showers de Santa Vitória do Palmar e, enquanto almoçávamos às margens da rodovia, eis que surge ele, lutando contra o vento que também nos assolava. O Shirtes é profissional de teatro, saiu de São Paulo já há algum tempo e nos acompanhou durante todo o dia de pedal. Nesse dia mesmo nos separamos, ele seguiu até José Ignácio e nós dormimos em uma escola de Kite Surf, depois de fazer contato com a proprietária via telefone. Essa escola ficava ao lado de uma ponte redonda, a pudente Laguna Garzón, na ruta 10. Colocamos os sacos de dormir sobre alguns pallets e dormimos sem montar a barraca mesmo, já que o local ficava dentro de um parque no qual era proibido acampar. Ainda bem que não estava tão frio.

No dia seguinte fomos recebidos em Balneário Buenos Aires pela Patrícia, mãe de outro cicloviajante. Sua casa era toda feita com conceitos de bioconstrução, com paredes de barro e iluminação natural com garrafas embutidas na parede. O conforto térmico era impressionante. Difícil foi usar o banheiro seco, que ficava dentro da casa, mas tudo bem. O companheiro de patrícia, Pablo Peralta, é pintor muito talentoso. Tentamos conversar com ele, mas como já estava relaxado após alguns tragos, foi impossível compreender qualquer palavra que dizia.

Nesse dia criamos uma escala para medir a nossa fluência no idioma. Ficou mais ou menos assim:

Nível básico – Você consegue pedir comida, água e um quarto de hotel

Nível intermediário – Você consegue conversar com uma pessoa instruída

Nível avançado – Você consegue entender a letra de uma música

Nível fluente – Você consegue entendere conversar com uma criança

Nível Godmode – Você consegue conversar com um borracho (bêbado)

Em Punta del Este aproveitamos para conhecer alguns pontos turísticos mais famosos. A cidade é grande e rica, mas continua sendo segura. Fomos recebidos pelos Couchsurfing Max e Laura. Max é salva-vidas e músico, toca baixo em uma banda de Reggae chamada Diego Bianchini, que por sinal é muito boa. O Diego, vocalista e guitarrista da banda, é um cara muito gente boa. Ele é uruguaio e fala português super bem, mas nos impressionou o fato de ele falar com sotaque de manezinho da ilha. Fomos ouví-los tocar em um bar. A Laura é professora de Inglês e nos deu algumas aulas do idioma, além de nos apresentar vários conceitos de bioconstrução. Conceitos esses que, para variar, estavam aplicando na casa que estavam construindo eles mesmos.

Interessante como o mundo é pequeno. Antes de saírmos de Punta del Este, a Laura nos perguntou onde ficaríamos no dia seguinte. Ficaríamos em Punta Negra, na casa do Juan Souza, irmão do Gringo, o borracheiro que conhecemos em Florianópolis. Por incrível que pareça, Juan, também conhecido como Kico, era amigo de Laura e do Max, apesar de já fazer alguns anos que não se viam. 

Nossa hospedagem na casa do Kico foi uma das mais ricas e surpreendentes da viagem. Kico mora com sua esposa em uma linda (porém pequena, como todo bom uruguaio) casa em uma praia pouco habitada. Ele já morou alguns anos no Brasil e foi deputado federal no Uruguai. Tem um nível de cultura, de consciência e de engajamento comunitário excepcional, porém sem perder a humildade e a simplicidade. Kico também está construindo, com as próprias mãos, uma pequena casa de madeira aos fundos de sua casa, para receber os filhos e netos durante as férias. Na janta nos preparou uma comida deliciosa e gastamos horas conversando sobre todo tipo de assunto. Incrível como uma coincidência que aconteceu em Florianópolis, no início da viagem, nos levou até essa pessoa tão especial. Infelizmente não tivemos a oportunidade de conhecer sua esposa, mas o pequeno contato que tivemos com ela no dia seguinte nos deixou claro de que ela não era diferente dele.

Após mais alguns dias de pedal chegamos a Montevideo, onde um Warm Showers nos esperava. Isso era o que pensávamos! Por um maldito engano idiomático, o Gilli combinou com nosso host que chegaríamos na 5ª feira, mas ao invés de usar a palavra Jueves (5ª feira), utilizou a palavra Viernes (6ª feira). Quando chegamos, a pessoa não poderia nos receber. Após tentar várias pensões, acabamos rumando a um Hostel mais próximo do centro histórico da cidade, mas nos tomou algumas horas até conseguir encontrar um lugar que aceitasse a Frida.

No fim isso acabou sendo bom, pois não iríamos entrar em Montevideo. Pudemos conhecer algumas praças e construções históricas.

De Montevideo a Colônia o caminho é longo e muito ondulado. Longas subidas e descidas sem variar muito o nível médio, mas fazendo com que a subida acumulada ao longo do dia fosse equivalente a pedalar em uma região montanhosa. 

Em Libertad, nosso Warm shower nos cedeu um motorhome para que passássemos a noite. Foi a primeira vez que dormimos em um motorhome e ficamos apaixonados com a ideia. Quem sabe num futuro quando as pernas não aceitarem mais longos pedais, possamos fazer uma viagem mista. 

Colônia foi nossa última cidade uruguaia. Queríamos muito conhecê-la, pois todos diziam nos que era uma cidade linda. Realmente, o centro histórico é muito rico, a cidade é organizada é linda. Vale a pena o tour. Apenas nos arrependermos de caminhar 15 km para conhecer a Plaza de Toros. É uma antiga arena de touradas, porém está caindo aos pedaços e não se pode adentrá-la. De fora não é bonita, nada especial. 

Durante nosso passeio pela cidade acabamos nos deparando com o motorhome da Casa Nômade. Já os havíamos visto estacionados em Punta del Este e tentamos contato com eles pelo Instagram, mas acabamos nos desencontrando. Por coincidência estavam eles ali também. Quando os encontrávamos estavam todos do lado de fora do caminhão, enchendo os pneus das suas bicicletas para fazer um tour pela cidade. Conversamos um pouco com eles e combinamos de nos reunirmos pela noite para comer alguma coisa. Foi outro encontro maravilhoso que a viagem nos proporcionou. Renato e Glória são jornalistas mineiros (basta ouvir três palavras deles para adivinhar, rsrsrs), deixaram de lado bons empregos para seguir o sonho de viajar o mundo. Já conheceram algumas dezenas de países e agora estão viajando pela América do sul com seu caminhão-casa concebido pelo Renato, enquanto atuam como jornalistas de viagem. No momento em que os encontramos estavam acompanhados do seu sobrinho, Henrique, que é fotógrafo @rubensweil. Passamos horas conversando em uma pequena pracinha no centro histórico de colônia, comemos pão com linguiça brasileira, queijo da serra da canastra e brigadeiro. É claro, tomando vinho uruguaio! O papo foi ótimo, inspirador. Incrível como a energia dos viajantes se alinha, todos nos empolgamos muito conversando sobre as viagens, sobre o mundo.

Como tudo que é bom dura pouco, chegou então a hora de deixar o Uruguai e partir para uma nova etapa da viagem, um novo desafio: Argentina! De Colônia del Sacramento faríamos a travessia em barco até Buenos Aires. Compramos a passagem da empresa Seacat (mesma empresa que a Buquebus, só que mais barata) e embarcamos no gigantesco ferry da Buquebus. As bikes foram alojadas por nós mesmos, sem dificuldade, no compartimento de veículos. Demos à Frida alguns calmantes poderosos e a deixamos dormindo no Biketrailer, junto com as bikes. Subimos ao luxuoso compartimento de passageiros e, assim, sem maiores dificuldades, deixamos o tranquilo Uruguai.

Nos restaram as lições aprendidas, de simplicidade, de honestidade, de consciência social e comunitária. Novamente, deixamos bons amigos para trás, com a promessa de que um dia voltaremos a revê-los. 

Keep Riding!!!!!

6 COMENTÁRIOS

  1. Que lindo relato!

    O povo uruguaio parece ser fascinante e vivem em um país que aprendeu a cuidar do seu povo.

    Planejo viajar por lá de bicicleta com a minha parceira de vida, uma poeta baiana linda, e estou lendo sobre todos os cicloturistas que consigo achar. Vocês são inspiração para mim!

    Boa sorte e que Deus vós guarde nessa jornada!

    • Olá Flávio, tudo bem? Saímos de Blumenau pegamos a BR101 e fomos margeando quase todo litoral até Colônia do Sacramento. Veja no link do nosso trajeto: https://drive.google.com/open?id=17QpmAygatVhlzU_dZb5x9v0iMbM&usp=sharing
      Tudo é muito tranquilo, no início pegamos alguns desvios da rodovia por medo de pedalar próximo aos carros, mas depois acabamos preferindo do que pegar estrada de terra ou pedra. Você vai de bike certo? Veja o aplicativo chamado WarmShower… conseguimos muitas hospedagens gratuitas através dele. Uma única parte um pouco mais complicada é no Morro dos Cavalos onde não tem acostamento. Você pode entrar em Floripa e pegar um barco de pescadores locais que faz a travessia ou se for pela 101 mesmo, tente falar com a concessionária que administra a rodovia pra te dar carona 🙂
      Se tiver mais alguma dúvida estamos a disposição. Abraços!

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