O projeto Patas e Pedais

É 2013 e eu já estou quase me formando na faculdade pela segunda vez. Ainda assim a vida está apenas no começo para ficarmos presos em um único lugar. Minha companheira, Milka, e eu decidimos que após a formatura sairíamos de Blumenau por um tempo, conheceríamos a realidade longe do conforto de nossas casas e famílias. Enquanto passo os últimos meses no “banco da escola” a Milka resolve conhecer um pouquinho desse nosso mundão e parte para um intercâmbio no Egito e Irlanda.

Durante esses meses sozinho em Blumenau, um sonho que nutria desde os meus 15 anos se reavivava dentro de mim. Uma cicloviagem autônoma pela América do sul, em especial pela Patagônia. Antes mesmo de a Milka retornar ao Brasil já apresentava a ela a ideia. Sem entrar em muitos detalhes ela comprou a ideia na hora, afinal de contas, seu sonho de criança era ser carteira pelo simples prazer de poder pedalar o dia inteiro.

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Como na época nossos recursos eram escassos, planejamos uma cicloviagem de um mês entre El Calafate e Ushuaia. Estava tudo encaminhado quando, por ironia do destino, acabei sendo aprovado no programa de trainees de uma grande construtora de São Paulo. Era a oportunidade que buscávamos para ter nossa experiência fora de Blumenau e isso era ótimo. Infelizmente os sonhos adolescentes teriam de ficar para outra ocasião.

Era o início de carreira e tínhamos aquilo que muitos gostariam de poder ter também, não poderíamos deixar a oportunidade passar. O plano era passar cinco anos fora de Blumenau para depois retornarmos à região, próximo da família e amigos. Acontece que em Blumenau sempre tivemos uma vida simples e leve. Apesar dos salários modestos, nossos empregos eram flexíveis para aproveitarmos a vida a contento. Em São Paulo a coisa era diferente. Logo fomos transferidos para Campinas (que era um pouco melhor que São Paulo), mas o ritmo da obra era intenso, não havia sábados ou feriados, apenas poucos domingos. Eram 12 horas por dia na luta. Para a Milka, passar horas atravessando a cidade de carro, bater cartão e lidar com um ambiente de trabalho em uma indústria não foi nada fácil também.

Não percebemos, mas entramos invariavelmente no ciclo natural que rege a vida da maioria das pessoas: trabalhar, trabalhar, trabalhar, ganhar um pouco de dinheiro, gastar e acumular desnecessariamente, e descansar nos poucos horários livres. Esse estilo de vida não se encaixa na nossa personalidade, mas percebíamos claramente que vínhamos nesse caminho.

Fomos novamente transferidos para São Paulo e, depois de praticamente dois anos sem pedalar, voltei a fazer os meus deslocamentos diários de bicicleta. A satisfação era plena, porém o destino era sempre o mesmo: uma sala com temperatura e iluminação controlados, ambiente corporativo, competitivo, regado a reuniões improdutivas, metas, a recompensas, reclamações de clientes e discussões com fornecedores. Se para mim estava ruim, para a Milka estava ainda pior. Começou a trabalhar numa empresa para alta classe onde tudo era falado e nada era aplicado. Como ter sua carteira de trabalho retida e não assinada, além de “desculpinhas” por salários atrasados. Nem preciso dizer que a Milka não aguentou um único mês completo no lugar. A decepção foi tamanha que achou melhor ficar trabalhando em casa mesmo, fazendo freelances e se dedicando ao e-commerce que abriu com a mãe dela.

Trabalhar é bom, engrandece o homem e nos traz o sentimento de que somos úteis à sociedade. Sempre gostamos do que fizemos, de nossas profissões, de nossas atribuições. A questão é que tivemos a benção de enxergar o desequilíbrio em nossas vidas antes que fosse tarde. Trata-se do que os budistas chamam de “o caminho do meio”. Quando jovem, o príncipe Sidarta Gautama (o mais famoso Buda), vivia em um palácio cheio de riquezas e alheio ao sofrimento mundano. Ao ter contato com o mundo fora de seu palácio, conheceu o sofrimento, a morte e a pobreza. Foi então que abdicou de seu trono para viver uma vida de privações extremas, acreditando que esse seria o caminho para superar a doença e a morte. Sidarta, no entanto, somente atingiu a iluminação quando se deu conta de que apenas o equilíbrio entre os extremos era a resposta para eliminar o sofrimento.

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Pois bem, no meio dessa bagunça, todo o sentimento de falta de liberdade voltou com força e o sonho de viajar de bicicleta não tardou a se reacender. Seria como um grito de liberdade, um marco de mudança para as nossas vidas que ficaria entalhado em nossas memórias para sempre. Novamente joguei a semente para a Milka e, antes mesmo que a semente caísse no chão ela já foi agarrada, plantada, adubada e regada imediatamente.

Acontece que, diferente de 2013, agora nossa família crescera. Em 2014 adotamos a Frida, uma vira-latinhas hiperativa, ansiosa e com tudofobia (mal também conhecido como “medo da própria sombra”), mas que nos ajudou a seguir firmes (e sem nos matarmos) esses anos que estivemos longe de casa. Por tudo que ela representa para nós, e pelo tamanho amor que sentimos por essa pequena peidona, não seríamos capazes de sair em viagem e deixá-la aos cuidados de nossos pais. É claro, mesmo sabendo das limitações que a sua companhia iria nos impor, não temos sombra de dúvida (até por que, se tivéssemos, a Frida teria medo dessa sombra também) de que levá-la conosco transformaria a nossa experiência em algo ainda mais único.

Assim sendo, caímos de cabeça no planejamento da viagem, estudamos os detalhes, providenciamos os equipamentos, traçamos a rota definimos uma data de partida. A primeira viagem planejada, de 1.000 km em um mês, transformou-se em um projeto de 15.000 km, percorrendo quatro países em um ano e meio. Agora cá estamos, compartilhando com vocês nossa linda experiência de libertação e realização de um sonho. Estamos felizes de buscar novamente a simplicidade em nossas vidas, de encontrar a alegria nas pequenas coisas e de ver nas experiências a verdadeira riqueza da vida. Esperamos que vocês gostem das nossas histórias e, quem sabe, venham a se inspirar também para trilhar um novo caminho.

“Um homem precisa viajar por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou tv. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés para entender o que é seu, para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor e o oposto. Sentir a distância” – Amyr Klink