Imprevisto, rotina, o acaso e os 30 dias de cicloviagem

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O sol ainda não havia dado as caras quando o despertador tocou. Talvez nem precisasse, pois a ansiedade não nos deixou dormir como gostaríamos, mas isso também já era de se esperar. Como todo grande projeto, as expectativas nos tiram o sono e nos deixam atônitos para ver qual será o resultado do primeiro passo.

E assim foi, numa manhã gelada de outono, em meio às lágrimas da família, o primeiro passo foi dado. Meses debruçados sobre mapas, analisando e avaliando equipamentos, limitações financeiras, físicas e psicológicas para que pudéssemos nos lançar nessa empreitada. Tudo isso culminando em uma partida singela, nada de expectadores além de cinco familiares próximos. As pessoas mais importantes na verdade, assistindo as nossas primeiras tímidas pedaladas, como duas crianças que seguem pela primeira vez sozinhas até a escola.

Desde o dia em que saímos, nossa rotina tem sido a inexistência da rotina. Muitas vezes saímos de manhã sem saber onde passaremos a noite. Foram trinta dias de viagem até então, mas nos parecem ter passado meses, quem sabe até um ano.

Certa vez ouvi dizer que a rotina nos mata, com tarefas e ações automáticas, paisagens e pessoas repetidas, mesmos restaurantes, mesma comida, mesmos problemas, soluções e eventuais procrastinações. O tempo passa sem ser notado e, quando vemos, o ano já está acabando. Incrível mesmo é a forma como a percepção de tempo muda quando quebramos a rotina.

É assustador pensar nisso, pois onde estavam os nossos últimos cinco anos? Passaram num piscar de olhos! E se tivéssemos vivido esses cinco anos com a mesma intensidade e na mesma lógica (ou a falta dela) em que vivemos os últimos trinta dias? Dessa forma seguimos, todos nós, ano após ano, vivendo no piloto automático até nos darmos conta de que décadas se passaram e que o tempo perdido já não pode ser mais reconquistado.

Apesar da quebra da rotina, as primeiras semanas foram uma transição dura. Os resíduos da rotina anterior, da vida corporativa, ainda se mostravam fortes. A preocupação com a programação, com o planejamento, com o cumprimento de metas diárias pesavam e me deixavam desconfortável. Felizmente esse sentimento foi se dissolvendo aos poucos, o que deixou a viagem muito mais leve.

Essa dissociação com o que deixamos para trás acaba nos conectando verdadeiramente com a viagem e isso abre portas para o acaso. Aliás, o simples fato de estar na estrada te expõe ao acaso de forma tão intensa que as coincidências da estrada passam a ser inacreditáveis. Em um mês já fomos recebidos em casas de inúmeras pessoas desconhecidas, já recebemos convites de hospedagem que surgiram na estrada, já ganhamos comida de um caminhoneiro, cruzamos com cicloviajantes, conhecemos pessoas com histórias em comum e, o mais importante, fizemos e revimos muitos amigos.

Foram quase mil quilômetros pedalados, atravessamos dois estados e cruzamos nossa primeira fronteira internacional. A viagem de bicicleta ao longo desse caminho nos permitiu sentir a transição entre os lugares, sua geografia, clima, os ecossistemas com sua fauna e flora diferenciados, as culturas das populações locais.

Dormimos em casas de amigos que nos cederam a própria cama, em restaurantes de beira de estrada, em praças públicas, em escolas. Dormimos em locais com excelente infraestrutura e em outros imundos e asquerosos. Tivemos de ficar dias sem tomar banho, mas também pudemos desfrutar de hospedagens com direito a vinhos importados e excelente comida caseira.

Tivemos de parar por questões de saúde, aceitar que isso é algo ao qual estamos expostos e entender que adaptar os planos também é necessário e viável.

Passamos por regiões onde recebemos palavras de apoio e admiração, mas também por outras em que a população nos olhava com um desdém sempre acompanhado de comentários negativos, frios e irônicos sobre a nossa opção de viagem, em especial acompanhados da Frida.

Vimos as árvores e florestas diminuírem até se tornarem apenas relva. Vimos as montanhas se transformarem em planícies e grandes lagos e charcos naturais. Vimos centenas de espécies de aves, capivaras, lontras, preás e jacarés.

Convivemos com pessoas que nos engrandeceram e nos serviram de exemplo para seguir adiante e tudo isso tem nos feito evoluir, amadurecer a viagem e a nós mesmos. Nossa tolerância aumentou, nossas restrições se limitaram e a nossa satisfação com a simplicidade se intensificou.

Entendemos que no início da viagem tudo tenderia a ser, de fato, mais intenso, mas ainda assim acredito que daqui para frente ainda há muita experiênia a ser adquirida e muito a ser vivido. De qualquer forma, até aqui, o objetivo da viagem tem se cumprido perfeitamente, da maneira como gostaríamos.

Para completar as comemorações, no dia em que fechamos o primeiro mês de viagem também cruzamos a nossa primeira fronteira internacional e, assim, tivemos contato com a cultura uruguaia. Cultura de um povo amigável, hospitaleiro, gentil, de vida leve e sensata. É uma felicidade enorme a coincidência das datas, uma vez que não foi programada (e também que só nos demos conta depois de termos atravessado a fronteira).

Agora, enquanto escrevemos, descansamos junto ao casal de amigos Daniel e Eveline, da viagem Pela Vida Afora, e nos preparamos para a próxima parte do desafio. E assim como foi essa primeira parte da viagem, temos certeza de que grandes experiências nos aguardam.

Daniel, Eveline, Milka e Gilli

5 COMENTÁRIOS

  1. Estávamos dando uma volta pelo Uruguai de moto e encontramos esse casal próximo a Punta del Diablo-UY… Quanta ADMIRAÇÂO!!! Parabéns e “Sigue adelante”!!!

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