De Biguaçu a Laguna e as coincidências pelo caminho

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Distância pedalada: 141 km

No 8º dia chegamos cedo em Floripa e aproveitamos para rever o Scary, amigo de longa data do Gilli. Encontramos ele e a namorada na UFSC e ficamos algumas horas conversando e andando na Slack Line (tentando andar, na verdade). Logo o Alfredo, também amigo de infância do Gilli (quase irmão) chegou com a Fabíola e seguimos para a sua casa. Ficamos super bem instalados e deu para matar um pouco as saudades dos antigos amigos.

No dia seguinte saímos cedo, o plano era atravessar de barco do sul da ilha até a praia da pinheira, em Palhoça. Já na saída de casa vimos que essa missão seria mais complicada do que o esperado. Na noite anterior o tempo, que estava limpo, virou. Começou um vento sul danado, com muita chuva e que derrubou as temperaturas cerca de 20 graus de um dia para o outro. Mesmo assim seguimos.
No caminho, de baixo de chuva, buscamos abrigo em uma borracharia para ver como estava a Frida e aquecer um pouco as mãos. Incrivelmente, o Sr. Robert, borracheiro, nos contou que é uruguaio e que seu irmão mora em Punta del Este, de frente para o mar. Imediatamente nos entregou um cartão com o contato do irmão e disse que poderíamos ficar na casa dele se passássemos por lá. Ficamos super felizes com a coincidência, aceitamos de bom grado o contato se seguimos pedalando.
Logo na saída da borracharia um rapaz, de capa de chuva vermelha, pedalando uma bicicleta cinquentenária toda marcada do tempo, para do outro lado da rua e nos sinaliza que daquele lado havia uma ciclovia e que poderíamos pedalar por lá que seria mais seguro. Nem a tínhamos visto, então atravessamos na primeira oportunidade e seguimos viagem conversando com o ciclista encapuzado.


Tratava-se do Cláudio, engenheiro que havia acabado de retornar de uma temporada de alguns anos em São Paulo e estava recém estabelecendo uma empresa de automação em Florianópolis. Já havia feito algumas viagens de bicicleta, por isso a empatia foi imediata. Ele nos convenceu a mudar um pouco o trajeto que seguíamos e conhecer a praia do Campeche que, mesmo sob chuva seria uma boa parada. Topamos, e o acompanhamos por alguns quilômetros. Acabamos parando com ele no seu escritório para tomar um café, esquentar as mãos e fugir um pouco da chuva.
No escritório conhecemos também seu sócio, o Gustavo, que ao ouvir nossos planos sugeriu que ligássemos para a cooperativa de pescadores para questionar se seria possível fazer a travessia da ilha para o continente de barco. Nem imaginávamos que existisse essa tal cooperativa, mas ele encontrou o telefone e acabamos ligando para pedir informação. O rapaz que nos atendeu, em forte sotaque manézinho disse que a travessia não seria possível naquele dia, nem no próximo por causa da “força d’água”. Tá aí mais uma coincidência que culminou em mudança dos planos.
Ainda faltavam 25 km para a praia de Caieiras do Sul quando fizemos a volta, rumo à ponte para o continente. Pedalamos 20 km atoa e agora não tínhamos mais onde ficar, pois os planos haviam mudado. Durante o caminho entramos em contato com o Ismael, amigo do pai da Milka e que já havia nos oferecido hospedagem caso passássemos por Palhoça. Por sorte ele ainda tinha disponibilidade para nos receber e seguimos para sua casa.
Mais um caso de gente de grande coração em nosso caminho. Fomos recebidos com uma sopa super quentinha pelo Ismael, sua esposa Alíce e o pequeno Caio.

Acabamos contando para o Ismael que o nosso plano era atravessar pelo sul da ilha de barco para fugirmos do morro dos cavalos, na BR 101, que não contava com acostamento. Agora não teríamos como fugir e estávamos preocupados em como fazer para atravessar o bendito morro. No dia seguinte, de manhã cedo, o Sr. João, pai do Ismael, estava em frente à casa da família preparado com uma carretinha para nos auxiliar na travessia. Mal podíamos agradecer à ajuda prestada, o Sr. João foi um amor de pessoa, super atencioso. Acabou nos levando um pouco adiante do morro dos cavalos e nos poupou também do morro do espigão. A despedida foi emocionada, porém breve.
Pedalamos pouco até Imbituba, em busca de um camping indicado pelo Google. Ao chegarmos lá demos de cara com o camping fechado. Seguimos pela praia da Ribanceira em busca de alguma hospedagem quando vimos alguns pescadores em frente a um bar. Paramos no bar e pedimos informação a um homem que fumava enquanto tomava alguma bebida alcoólica. Suas roupas estavam rasgadas e a barba por fazer. Enquanto conversávamos ele nos contou que também pedalava, corria e que competia em ambas as modalidades. Achamos um pouco estranho, ele realmente não tinha cara de quem fazia isso, mas o seu carro, um Fiat Uno estacionado em frente ao bar, contava com um transbike na traseira. Papo vai, papo vem, ele nos disse que tinha uma pousadinha a dois quarteirões dali e que, apesar de estar fechada naquela época, poderíamos acampar no gramado e usar o banheiro de uma das cabanas. Com um pé atrás acabamos aceitando ir lá dar uma olhada no local.


A surpresa foi instantânea! O local era super organizado, com cinco cabanas e uma área comum central, todas de madeira e super bem conservadas. Guilherme, o tal cara do bar, era paulista e cansou da vida agitada e estressante da cidade grande e comprou alguns terrenos por alí, onde montou sua pousada, ao lado de grandes dunas de areia macia. Hoje tem uma vida tranquila, saudável e equilibrada, desapegado das aparências. Pegamos ele num momento de exceções quando o encontramos no bar, pois hoje ele bebe e fuma apenas ocasionalmente. A hospedagem lá foi ótima, conversamos durante horas e aprendemos muito sobre PANCs (Plantas Alimentícias Não Convencionais), com direito a um baita suco verde de despedida. Uma delícia! O acaso trabalha ao nosso favor novamente e, aqui deixamos mais um amigo para trás, com a promessa de retorno algum dia.
De Imbituba rumamos para a Praia do Sol, em Laguna. Mais uma vez seguimos para um camping indicado pelo Google, o camping Sol Sul. Dessa vez estava aberto, mas seríamos os únicos campistas no local. O proprietário do Camping foi muito gentil e acabou nos cedendo uma cabana, assim não precisaríamos armar nossa barraca e teríamos uma estrutura completa para o que fosse necessário. Ficamos muito felizes com a opção, afinal de contas estávamos cansados e a estrutura da cabana (e também do resto do camping) era muito boa, limpa e conservada.


Nessa última parada tomamos um susto com a Frida. Em Imbituba deixamos ela solta nas dunas, onde ela correu livre e feliz durante todo o tempo que estávamos lá, sem se afastar muito. Na praia do Sol não foi bem assim. A praia é praticamente deserta, com uma faixa de areia enorme, então o Gilli não viu problema em soltá-la novamente. Num primeiro momento ela se comportou bem, correu bastante mas sem se afastar, sempre com medo da água do mar. Isso até ver um grupo de gaivotas. Nesse instante ela ficou cega e surda para todo o resto do mundo, enxergava apenas as gaivotas. Desatou a correr pela praia sem nunca parar. Correu por quase 1 km, entrou na água, pulou ondas, se jogou na areia e tentou abocanhar todas as gaivotas que viu pelo caminho. Por sorte o Gilli conseguiu capturar ela novamente, mas o momento foi tenso e pareceu durar uma eternidade.

 

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